29 de agosto de 2008

DAS COISAS QUE NOS DIZEM

Nos últimos tempos entra-se nos países árabes com medo. Poderia dizer isto de uma forma mais "adequada", mas é medo que se sente quando damos por nós rodeados por multidões em férias, as mulheres cobertas para lá dos dentes e os homens iguaizinhos aos retratos dos bombistas suicidas da televisão. É com alívio que se avista aqui e ali um europeu perdido, ele próprio com ar receoso....
Depois a coisa passa. Agradamo-nos da limpeza do interior das casas modestas, da forma delicada e prestável como falam connosco. Reparamos na delicadeza dos tecidos e na dificuldade do ritual do chá. E, mais importante de tudo, que são pessoas exactamente como nós, melhores em muitos aspectos, iguais ao que nós éramos 30 anos antes, noutros. Não há grande diferença entre a Maria Cavaco Silva de véu diante do Papa e a mulher que se esconde por detrás do lenço. As duas estão convencidas de estarem a fazer "a coisa certa". E estão, de alguma maneira.
Quanto mais viajo pelos países pobres, muçulmanos ou outros, mais me convenço de que a Europa perdeu alguma coisa no trajecto para a prosperidade. A começar nas pessoas.
Enquanto passeio pelos ruas estreitas, no meio de carpinteiros e alfaites que lutam para se manter vivos e dignos, penso em Bush, criado na riqueza republicana. E pergunto-me por que razão tomamos, inconscientemente, para nós o medo ignorante dele e dos que são como ele.
Na verdade, a brevidade da vida deveria fazer-nos repetir Inshallah (está tudo nas mãos do Destino).
O nosso único medo permitido deveria ser o de não ter vivido.

9 de agosto de 2008

QUANDO COMEÇAMOS A FICAR MUITO RESMUNGÕES...

é tempo de pegar na mochila. Fui.
Salam Haleikum!

8 de agosto de 2008

OS MÍNIMOS OLÍMPICOS DA GOVERNAÇÃO

É verdade que para ser ministro é preciso ter alguma competência e utilidade para o país. Mas na ausência destas competências, e sem grandes exigências, não deveria haver uns mínimos estéticos? Qualquer coisa que diferenciasse um governante de um pesadelo do Tolkien... Digo eu.



ps: obviamente, como anteriormente ficou demonstrado, o psd também não concorda com isto... Em latim Sic horror demonstratum

7 de agosto de 2008

FILMES (PAI E FILHA)

Será por razões pessoais, admito, mas este continua a ser um dos meus filmes favoritos:

O BEDELHO MAL METIDO

Sei, por experiência e observação interessada, que as comissões de pais são uma boa ideia que não resulta, em Portugal. Envolver a família e tal, estaria certo, se as pessoas que se oferecem para esses lugares não fossem, de uma forma geral (salvaguardo as raríssimas e honrosas excepções)indivíduos que ambicionam o poder, seja ele qual for. A minha vizinha de baixo, que é cozinheira, a professora primária que acha que está tudo mal nas outras escolas, o reformado por processos fraudulentos aos 45 anos e a senhora devota que não está disposta a que a educação dos seus 250 filhos, paridos com tanta alegria caia em mãos liberais.
Quando estas comissões se unem em confederações é a desgraça completa. O nível de disparate aumenta e o de influência também.
Se houvesse dúvidas sobre isto, bastaria analisar este comunicado (ou conferência, não sei) de imprensa, divulgado hoje nos jornais:

"Dois em cada três casos de violência e indisciplina registados nas escolas devem-se à falta de funcionários auxiliares nos estabelecimentos de ensino, defendeu hoje a Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE), que exige, por isso, "medidas urgentes".

"A CNIPE atribui 65 por cento dos casos de violência e indisciplina ocorridos com alunos à falta cada vez maior de pessoal auxiliar nas escolas", refere a confederação, num comunicado hoje divulgado."
Onde é que estas criaturas vão buscar os "65%"? Perguntaram aos filhos adolescentes, lá em casa? Ou leram o último livro de auto-ajuda sobre o assunto, "A Contínua é que nos salva"?
Basta ENTRAR numa escola, para ver que isto é idiota. Toneladas de mulheres sentadas em mesinhas às entradas dos pavilhões, quilos e quilos de homens com ar de nunca terem feito nada na vida a passear, atravessam-se pelos olhos dentro. Não limpam, não vigiam, não ajudam. São mulas de trabalho ao contrário. Parasitas com contrato por tempo indeterminado.
O que o governo deveria fazer era pôr metade destes inúteis na rua. Que fossem trabalhar para pagar a renda de casa, em vez de nos chularem há mais de 30 anos.
Quanto às confederações de pais que nos oferecem estas pérolas de cretinice... Era dar-lhes renda para fazer ou conversarem descansadamente uma tarde ao lado de uma destas pobres Auxiliares (?) de Acção Educativa.

Bem tinha razão o meu amigo A.M. quando gritava "a ignorância e o vento têm o mesmo atrevimento!"

5 de agosto de 2008

"Novo fármaco imita nos ratos os benefícios do exercício físico", in jornal PÚBLICO

Paulo Portas já terá afirmado: "eu, por mim, fiquei em forma".
Já o ministério da Cultura está a estudar a hipótese de adaptar estes comprimidos que simulam coisas a um medicamento para criadores artísticos. Desta forma, os artistas portugueses que não tenham sido despedidos de um teatro público com indemnizações milionárias, poderão simular que estão a ter as condições mínimas para produzir, ou nos casos extremos, que afinal ainda não morreram de fome.


ULTIMA HORA: o Infarmed pode ter vindo afirmar que só aprovará este medicamento se ele simular que o seu único objectivo não é acumular fortunas à custa dos doentes portugueses, como muita gente acha.

1 de agosto de 2008

A OESTE NADA DE NOVO

Fragateiro cai da direcção do Teatro Nacional, para alegria e gáudio daqueles a quem "roubou" o lugar. O ministro demite-o, antes da conclusão do processo. Lá terá as suas razões. Para a administração sobem nomes sussurrados no meio como sendo de "ascensão ágil". Nada de novo. Demite-se quem faz um (alegado) mau trabalho e abre-se a porta ao próximo carreirista. No fim, despede-se, com uma indemnização paga pelos contribuintes. Mais uma.
E é este último ponto que deveria constituir um choque para todos nós.
De acordo com o jornal Público, "o orçamento do teatro para 2008 é de seis milhões de euros, dos quais 5,2 milhões de euros de indemnizações compensatórias e 800 mil euros de receita de bilheteira" CINCO milhões e duzentos mil euros para oferecer a pessoas que foram trabalhar para outros lugares? Por alma de quem?
Num país em que "não há" um tostão para ajudar os artistas, isto roça a pouca-vergonha.

Ps: Esclareço que não devo nada ao Fragateiro. Além de me ter recebido sempre que eu lhe pedi, nunca me convidou para coisa nenhuma, ou me propôs qualquer trabalho. Mas vi o que ele tentou fazer com uma instituição entregue a sanguessugas. E conheço, um pouco, quem o vai suceder. Mais do mesmo. Não há santos nesta terra. E muito menos qualquer D.Sebastião. Apenas vagas sucessivas de nevoeiro.
O CALOR
acaba com a nossa boa vontade de trabalhar Agosto fora. Sim, faz-se o que se tem de fazer... mas do sonho de praia, o dia todo, ninguém nos livra.
(suspiro)

29 de julho de 2008

SALÁRIOS DE GESTORES PÚBLICOS

Parece-me um exagero as pessoas acharem de mais que um gestor público possa ganhar perto de 37.000 euros, 14 vezes por ano. Além do motorista, ajudas de custo e alcavalas várias.
É verdade que a maioria faz um trabalho ruinoso e prejudicial ao país.
Mas, coitados, para o que eles ganham, muito fazem eles.
O meu coração está com esses quase-sem-abrigo....

O QUE SE ENSINA E O QUE SE QUERIA ENSINAR

Leio com alguma atenção, as 222 páginas dos programas para o Ensino Básico (até ao 9º ano, portanto).
Parece-me bem. Na generalidade, a coisa parece-me bem elaborada a nível de objectivos gerais e até específicos. O que se quer que os meninos saibam no final destes anos, poderia ser melhor, mas é bastante bom.
Então onde é que a coisa falha? Como é que ao fim de 9 anos, mais se incluirmos a pré-primária, os objectos dos programas sabem tão pouco. 90% passam ligeiramente do estado de "embrutecidos" e menos ainda de "ignorantes totais".
O ministério parece que concluiu que a culpa é dos professores.
Os professores que é do ministério e dos seus programas excessivos e frequentemente alheados da realidade....
Mas,se como foi referido atrás, os objectivos eram bons, como se explica esta última hipótese.
Quando olho mais de perto as sugestões (lidas pelos professores como "ordens") de operacionalização, vejo o início do aborrecimento, tédio e desinteresse a começar. A irracionalidade desponta e o disparate dispara. A forma como é proposta aos professores que façam "chegar a matéria" é fraquita, para não dizer mais.
Estes, por seu lado, aceitam a sua aplicação como o "dever do funcionário". Se derem aquilo assim, ninguém os chateia. O que é verdade.
Ninguém, a não ser... os objectos do seu trabalho, os alunos.
Criados numa sociedade entorpecente, ligados pelo rabo ao sofá e deste à televisão e ao computador, esperam que a escola os sirva de bandeja, sem pedir nada em troca. A maioria dos alunos portugueses imagina que a aprendizagem se faz deitado numa "chaise longue" romana, por isso,não podem deixar de achar duros os assentos da escola.
Dos meus contactos com os 3 lados do problema, sai-me a certeza de que ninguém ouve ninguém. E de que ninguém está realmente CONTRA ninguém (mesmo os sindicatos estão apenas a favor da manutenção da mama inútil que é o seu, por assim dizer, trabalho).
Sempre que propus actividades criativas e estimulantes ao Ministério, aos professores ou a alunos, todos reagiram com boa vontade, nalguns casos com entusiasmo. Nenhum se chateou de ajudar, trabalhar mais ou esforçar-se para aprender. Logo, é possível mudar as coisas.
Não acredito que isto se resolva nos tempos mais próximos. Porque daria trabalho, obrigaria a repensar o modelo de escola e o acto de ser aluno.
E, contudo, a minha experiência só me confirma que sim, que seria possível...

28 de julho de 2008


CRESCER
é entender que se deve estar no mundo como uma matriarca no meio das crianças: elas correm, gritam, acusam-se umas às outras, caem e partem coisas, enquanto a matriarca mexe o tacho da comida e pensa que esta Primavera está um pouco mais fresca que a do ano passado.

21 de julho de 2008

LA BEAUTÉ

Olhando a... beleza exótica de Manuel Ferreira Leite, percebe-se com dificuldade a sua insistência na necessidade de procriar.
Digo eu, sei lá. Também há a teoria de quem feio ama, bonito se reproduz...

16 de julho de 2008

A POBREZA

É impressão minha ou os vãos de porta e a entrega de alimentos na "sopa dos pobres" têm cada vez mais pessoas?
O BASTONÁRIO

Quando foi eleito, um amigo meu, ex-advogado, mostrou-se desconfiado com a sua prosápia. Acha que muito do que o actual bastonário da ordem dos advogados afirma é inflamatório mas pouco consistente.
Talvez seja. Mas a urticaria geral que as suas declarações provocam sempre que fala em diminuir os privilégios de alguns, repito, alguns, advogados e dirigentes da ordem, fazem-nos desconfiar do fogo que haverá por detrás do fumo. Números como 5 milhões de euros anuais de cotizações atraem, de certeza, os ambiciosos, os de pouco escrúpulo e aqueles que acham que Deus os colocou na Terra para nos iluminar a todos (os que não entraram para a magistratura, quero dizer, porque esses nem se sabe quem os colocou no trono altíssimo de onde nos regem...).
Eu, por mim,não sei. Mas vejo os edifícios onde a ordem se abriga. Os restaurantes onde comem. A forma como saltam dos postos administrativos para a riqueza.
Peço desculpa, terão muita razão em nos dizer que o homem gosta de incendiar o caminho, mas não acreditem que estamos todos cegos para acreditar nas exclamações indignadas de advogados. Até porque "verdade" e "advogado" (sobretudo, funcionário de uma ordem corporativa que não permite a quem exerce a profissão não lhes pagar mensalmente) nunca na vida serão sinónimos.

14 de julho de 2008

REGRESSA-SE, OITO DIAS DEPOIS DE ESTAR NO MAR, O CORPO AINDA QUENTE DO SOL QUE QUE FICOU PARA TRÁS, A SUL, NOS AREAIS, O PÉ (AGRADECIDAMENTE) FERIDO POR TER PISADO UM BICHO MARÍTIMO NUMA NOITE EM QUE SÓ HAVIA A LUA, AS ESTRELAS EM CRESCENDO, E O VAGO CHEIRO DOS ARBUSTOS QUE CHEGAVA DAS ENCOSTAS BAIXAS. UMA SEMANA, QUE NÃO É NADA, E AINDA ASSIM, FICAMOS EM PAZ.
nestas alturas, toda a música faz sentido.

6 de julho de 2008

OUT OF THE OFFICE...
A BOLA NÃO TEM JUÍZO

Devo estar a ficar velho, ou era muito criança no tempo em que o futebol era apenas um jogo e toda a gente torcia por este ou por aquele, sem pensar no dinheiro que se ganhava ou deixava de se ganhar.
Nas últimas duas décadas, pelo menos, a tomada de consciência de que o futebol interessava a milhões e que se podia fazer toda a espécie de manigâncias para assegurar que o dinheiro continuará a nascer nos bolsos de muitos enquanto não viaja para paraísos fiscais, terá mudado tudo. A guerra se um clube é melhor do que outro perdeu toda a sua carga ingénua. Há muito que se trata apenas de manipulação de adeptos e extorsão de "acções", "incentivos" e "apoios". As fortunas gordas associadas a este desporto não surgiram do nada e, sobretudo, mantêm-se com muito trabalho. Isso envolve a corrupção de quase todas as estruturas do país, das autarquias aos tribunais, às finanças mais ou menos locais e provavelmente, a partes dos diferentes governos que temos tido ao longo dos últimos 20 anos.
Quando se fala do F.C.P. não participar das competições europeias, não se está a falar de futebol, mas de milhões de euros de prejuízo, dinheiro que algumas pessoas não vão receber. O mesmo se aplicará a muitos outros clubes, incluindo o Boavista e, todos os que enriquecem com a, apropriadamente chamada, "Liga Milionária".
O discurso deste senhor do "Conselho de Justiça", usando todos os recursos ao seu alcance para impedir que o resto dos "conselheiros" (acácios, por certo) decidisse contra os interesses que defende é a prova que tudo está inquinado. Se há juízes que se defendem assim, sabendo-se de antemão as suas ligações às partes interessadas, então o que temos a temer está muito para lá das intrigas futebolísticas. Está nas salas de audiência a sério. Nos lugares onde a vida das pessoas é decidida por gente como esta. Pessoas que protegem as mais discutíveis convicções por detrás do jargão jurídico e da propaganda da predominância da forma sobre sobre a substância.



ps: se alguém vir onde param os jogos de bola da minha infância, os que se jogavam e os que se coleccionavam em cromos, com a sua carga de entusiasmo e inocência, faça o favor de me informar...

4 de julho de 2008



ELES RESISTEM

Por mais que as televisões se esforcem por transmitir a ideia de que os livros ou desapareceram da face da terra ou são tão banais que até um dos seus apresentadores é capaz de fazer um, a verdade é que a Literatura resiste.
De todo o lado me chegam notícias de grupos informais de leitores. Gente que se organiza, uma vez por mês ou quando calha, para falar de um livro ou poema que todos leram.
Tvi, RTp e Sic vão ter de continuar a insistir, porque pelo andar da carruagem há-de sempre haver quem tenha energia para carregar no off do comando, de vez em quando. E, entre as páginas escritas por outro, romper um pouco a alienação.

3 de julho de 2008

NÃO SEI DE QUE GOVERNO É QUE O SENHOR FOI MINISTRO DAS FINANÇAS

Mas há muito tempo que não ouvia um economista/ex-ministro a falar de forma tão directa.
As crises têm coisas boas. Uma delas é começarmos a falar verdade.
A entrevista de Medina Carreira (por enquanto) pode ser vista aqui.